Inadimplência empresarial volta a crescer e acende alerta no comércio capixaba

A inadimplência empresarial voltou a crescer no Espírito Santo e acende um sinal de atenção para o comércio. Em junho, 136.167 empresas estavam negativadas, segundo a Serasa Experian. É o maior número já registrado para o mês, embora ainda esteja abaixo do pico de 140.626 empresas alcançado em dezembro de 2025.
As micro e pequenas empresas concentram quase a totalidade dos registros. São 130.422 negócios inadimplentes, cerca de 96% do total. O dado preocupa porque essas empresas geralmente operam com menor margem financeira e possuem menos alternativas para enfrentar períodos de restrição de crédito.
Ao todo, as empresas capixabas acumulavam aproximadamente 675 mil dívidas negativadas, uma média de cinco por CPNJ. O valor médio chegou a R$ 13.979,82, com redução de R$ 188 em relação ao período anterior.
O avanço ocorre em um momento estratégico. Nos próximos meses, o comércio começa a reforçar os estoques para as vendas de fim de ano. Com os juros elevados e o crédito mais caro, torna-se mais difícil obter recursos para financiar compras e sustentar o capital de giro.
Nesse ambiente, antecipar as necessidades de caixa, negociar prazos com fornecedores e dimensionar os estoques de acordo com expectativas realistas de vendas são medidas fundamentais. O cuidado deve ser maior entre os pequenos negócios, nos quais um descompasso entre pagamentos e recebimentos pode comprometer toda a operação.
O cenário das famílias também recomenda cautela. Em julho, os consumidores capixabas acumulavam 5,6 milhões de dívidas negativadas, com média de quatro por consumidor e valor médio de R$ 6.117,39.
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, mostra que 31,5% das famílias estavam com contas em atraso. O indicador apresenta estabilidade e tendência de queda. Ao mesmo tempo, o endividamento alcançou 88% das famílias e continua crescendo.
Essa combinação precisa ser interpretada com cuidado. A queda da inadimplência não significa, necessariamente, maior disposição para consumir. Mesmo mantendo os pagamentos em dia, famílias muito endividadas tendem a comprometer uma parcela maior da renda com despesas já assumidas.
Para o comércio, o desafio será estimular as vendas sem comprometer a saúde financeira. Condições diferenciadas de pagamento podem facilitar as compras, mas devem considerar os prazos de recebimento e seus efeitos sobre o capital de giro.
O fim do ano representa uma oportunidade importante para o setor. Aproveitar o aumento sazonal da demanda, porém, exigirá planejamento, controle dos estoques e negociação com fornecedores. Em um cenário de crédito caro e elevado endividamento, vender mais será importante, mas vender com equilíbrio será fundamental.
André Spalenza, coordenador do Observatório do Comércio do Connect Fecomércio-ES e doutor em Administração Pública e Sociedade.
Gercione Dionízio, economista do Observatório do Comércio do Connect Fecomércio-ES e doutor em Economia Aplicada.